Ponto e nó: tecendo minhas memórias na bonecaria
setembro 2026
Nota: As reflexões tecidas neste ensaio constituem a base conceitual do projeto pedagógico sobre identidade e literatura infantil que desenvolverei com a minha turma. Aqui, a escrita não se apresenta como uma verdade absoluta, mas sim como uma ferramenta viva de estudo, escuta e recriação constante da prática docente.
Boa leitura!
Quem teve a oportunidade de brincar com o pedal da máquina Singer na infância sabe que a imaginação pode nos levar a qualquer lugar. Ela ficava no corredor da casa da minha avó, passou pelo quartinho de lenha e terminou no cômodo dos fundos. Lembro-me do meu avô renovando o verniz da mesa e reforçando a tinta preta dos pés de ferro. Já adulta, sempre que olhava para ela me perguntava como cabia tanta diversão em um espaço tão pequeno.
Naquela época, nos anos 90, eu era uma criança cercada de brinquedos simples, mas extremamente bem cuidados: ursinhos, bonecas, carrinhos de polícia, miniaturas e um elefante cor-de-rosa. Quando meus pais se separaram e nos mudamos para a casa dos meus avós maternos, meu avô montou prateleiras para meu irmão e para mim. Mas a regra da minha avó era soberana: tudo devia ser guardado em sacos plásticos bem fechados para não pegar pó.
No início dos anos 2000, assistir ao Sítio do Picapau Amarelo antes do almoço era o ritual que marcava a hora de ir para a escola. Eu era fascinada pelos personagens, especialmente pela bonequinha Emília. Guardo até hoje a memória da revistinha da Turma do Sítio sobre o Fome Zero, em 2003, e da cartinha com o desenho da Emília que uma amiga me entregou quando mudou de cidade. Aquelas manhãs e a rotina simples moldaram meu amor pelas histórias.
Os anos passaram e, por volta de 2007, estava concluindo o ensino médio e encarando a vida adulta. Após uma primeira experiência profissional em um escritório de advocacia, passei a frequentar cursos de inglês e informática. Não havia mais as manhãs de TV nem minha avó chamando para o almoço. Foi nesse cenário de incertezas que surgiu uma oportunidade em Mogi das Cruzes: um curso de bonecas de pano promovido pela prefeitura para incentivar a formação e o empreendedorismo. Como minha tia frequentava essas oficinas, passei a acompanhá-la.
O curso focava na costura manual, utilizando apenas algodão cru, linha e agulha. Aprendemos a confeccionar galinhas e galos como pesos de porta — algo muito familiar para quem cresceu com aves no quintal —, além puxa-sacos de sapos e coelhos. Entre a informática e o inglês, a bonecaria conquistou meu coração.
No final daquela década, aos 19 anos, ingressei na faculdade de Pedagogia imaginando que a confecção de bonecas ficaria guardada apenas como uma lembrança da adolescência. Enganei-me. Mesmo no ambiente universitário, a arte manual era constantemente convocada — mais especificamente com a "Galinha Conchita", nome de batismo que a peça ganhou no curso. Fosse nas atividades pedagógicas ou na venda de artigos artesanais, aquela arte recusava-se a ser apenas uma lembrança.
A vida, contudo, não era feita só de ponto e arremate; demandou muito pesponto até o início da vida adulta. Anos depois, já trabalhando em sala de aula, fiz minha própria despedida daqueles antigos brinquedos da infância bem ao estilo Toy Story — embora ainda os preserve em fotos e colecione novos companheiros, como amigurumis. Assim também, a máquina que ganhava vida na imaginação, naquele pequeno espaço que abrigava os pedais da velha Singer, costurou minhas ideias e o fazer manual na vida docente.
Ao ingressar no serviço público em Poá-SP, em 2015, uma das primeiras formações de HTPC abordou a boneca Abayomi. Em uma roda de histórias, fomos apresentadas às figuras de retalho que, segundo a narrativa da formadora, mulheres escravizadas nos navios negreiros teriam confeccionado para suas crianças usando tiras das próprias roupas, unidas por nós e sem costura — cujo nome Abayomi significava "meu presente". Contudo, aquela versão me causou profundo incômodo. Pareceu-me uma romantização sem sentido de uma violência brutal, algo impossível de aceitar como verdade inquestionável. Ao estruturar meu planejamento à época, fiz algumas pesquisas e encontrei um nome e um rosto: Lena Martins. Ali descobri a história de resistência nascida no movimento de mulheres negras do Rio de Janeiro no final dos anos 80. Foi o meu verdadeiro encontro com a história, numa perspectiva que não idealizava a dor.
Dois anos depois, em 2017, enquanto lecionava para uma turma de 3º ano na Emeb Carolina Ribeiro, montei um projeto de leitura. Como a febre do momento entre os alunos era o jogo Minecraft, decidi traduzir esse interesse confeccionando um boneco 3D em feltro. Um registro que me marcou profundamente ocorreu quando o pai de um estudante foi solicitar a transferência do filho e desabafou: "Professora, ele é muito tímido, mas em casa não parava de falar do boneco que a senhora fez para o projeto do livro. Ele estava muito animado quando chegou a vez dele!". Eu realmente não esperava que algo tão simples pudesse tocar a sensibilidade daquela criança.
Ainda em 2017, percebi, no olhar de minha aluna com paralisia cerebral, o desejo profundo de participar do show de talentos da escola. Não demorou para que um pouco de tecido, uma ideia corajosa e o apoio da minha avó dessem vida a uma cauda de sereia cor-de-rosa. Costurada na velha Singer — em uma de suas últimas grandes missões antes de se aposentar —, a peça transformou a apresentação em um momento especial para ela e para todos os presentes. Aquele episódio consagrou para sempre a arte da costura e da bonecaria à minha trajetória.
Já no ano seguinte, em 2018, atuando na Educação Infantil da Emeb Batuíra, desenvolvemos um trabalho sobre identidade. Reunimos a turma e desenhamos coletivamente nossos mascotes: um menino e uma menina. Lá fui eu, novamente munida de linha, agulha e feltro, confeccionar os personagens para o grupo. Embora eu não conserve fotos das peças, as lembranças permanecem bem vivas em minha memória.
Assim, ao olhar para o passado, percebo que o curso, que parecia apenas um detalhe na minha história, acabou por tecer um sentido único na minha caminhada pedagógica. De encontros e descobertas, minhas ideias e minhas mãos criaram memórias em infâncias para além do que minha imaginação poderia supor.
Em abril de 2023, o calendário escolar pedia aquela decoração típica da Educação Infantil, misturando os coelhinhos de Páscoa, personagens da literatura infantil brasileira e o abril indígena. Um belo dia, no momento em que eu organizava a fila do café para retornar à sala, a secretária escolar se aproximou e perguntou:
— Prô, eu queria colocar a Emília na decoração, mas disseram que o Monteiro Lobato está cancelado. Por quê?
Entre o choque da pergunta e a tentativa de manter as crianças em fila, respondi de forma breve:
— Provavelmente pelos escritos racistas em relação à Tia Nastácia e por outros posicionamentos do autor.
Curiosa, perguntei quem havia dito aquilo, ao que ela respondeu:
— Todo mundo!
Mas, na minha inquietação, "todo mundo" é gente demais e, ao mesmo tempo, ninguém, pois não havia nomes por trás da afirmação. Naquele momento, fui vencida pela pressa e pelos coelhinhos, então dei a conversa por encerrada. Enquanto ela retornava à secretaria e as crianças voltavam para a sala, fiquei perplexa: onde é que eu estava que não fui convidada para essa reunião com pauta de cancelamento?
Aquele diálogo me desassossegou por revelar como as pautas digitais atravessavam a rotina escolar sem que eu tivesse me dado conta. Foi o ponto de partida para uma série de estudos: o que era fato? o que era apenas tendência de internet? qual a minha postura diante do tema? o que a reflexão pedagógica exigia de mim? Portanto, este texto soma-se também a esse movimento contínuo de aprendizado. Afinal, a reflexão pedagógica é um processo vivo de reciclagem, muito mais potente do que se fechar na rigidez de dogmas de internet — ou se acomodar na velha ideia de ter uma opinião formada sobre tudo.
Essas vivências revelam o entrelaçamento entre a literatura e o mundo real. Da minha infância, a figura da Emília me acompanhou até a transição para a vida adulta. Já na docência, o encontro com a boneca Abayomi e com a figura de Lena Martins me deu o chão da escola — um espaço que exige compromisso com a história e com a infância de tantas crianças. Hoje, na prateleira do meu quarto, dividem o mesmo espaço a Emília e a Abayomi — e isso diz muito.
Nesse tecer de ideias, surge a possibilidade de responder àquela questão trazida pela secretária não com uma certeza absoluta, mas como um convite ao diálogo sobre uma história que não pode ser apagada, e sim revisitada à luz da consciência.
Se a boneca Emília é a figura mais marcante do Sítio do Picapau Amarelo, vale lembrar que ela nasce, ponto a ponto, pelas mãos de uma mulher negra. Nesse sentido — e apesar das dinâmicas raciais problemáticas do autor —, o ato criativo desloca Tia Nastácia do papel de coadjuvante e a consolida em uma nova posição:
A maior bonequeira da literatura infantil brasileira.
Logo, ao deslocar o olhar para as mãos, a agulha, os retalhos e o fazer manual da bonecaria como tecnologia de afeto, criação e genialidade negra, emerge o protagonismo de Tia Nastácia, criadora da própria força motriz da narrativa. Sob essa perspectiva, em que o combate ao racismo na obra é inegociável, a proposta do simples banimento do clássico revela-se uma saída superficial. O mero cancelamento da obra impede o debate necessário sobre o racismo estrutural — em vez de promover a formação crítica do leitor — e perde a oportunidade de uma reparação histórica: a de retirar Tia Nastácia do lugar secundário e reconhecê-la como a verdadeira força criadora da boneca de pano mais famosa da literatura brasileira.
Assim, traço um paralelo direto com a história da boneca Abayomi. Criada em 1987 pela artesã maranhense radicada no Rio de Janeiro Lena Martins, a boneca negra sem cola e sem costura — cujo nome significa "meu presente" — nasce livre como símbolo contemporâneo de resistência. Reconhecer a autoria de Lena Martins é fundamental para combater o racismo estrutural e o silenciamento da arte negra, afirmando a verdade histórica de que a Abayomi nasceu da potência criativa. Do contrário, corremos o risco de aprisioná-la em recontos que confinam a história negra apenas ao trauma da escravidão.
Da mesma forma, sem a mediação docente que seleciona, recontextualiza e ressignifica essas narrativas no chão da escola, corremos o risco de invisibilizar as mãos de Tia Nastácia, que deram contorno à Emília — a personagem de destaque da nossa literatura infantil. Essa escolha não anula a urgência de priorizarmos os livros de autores negros — compromisso que também assumo. Pelo contrário: trata-se de recusar o consumo ingênuo dos clássicos e exercer uma mediação pedagógica consciente, capaz de extrair a força da personagem sem ignorar as contradições da obra.
No dia 6 de setembro, às 10h30, acompanhei o painel promovido na Arena Cultural da 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, dedicado ao tema "Descobrir quem somos começa cedo: letramento racial é coisa de criança". O encontro reuniu autoras, educadoras e especialistas de referência no movimento antirracista brasileiro: Bárbara Carine, Maíra Azevedo (Tia Má) e Kiusam de Oliveira, com mediação de Pétala e Isa Souza (do coletivo As Afrofuturas). Foi uma oportunidade transformadora para refletir sobre a força da literatura, do imaginário e das ações práticas que podemos desenvolver no chão da escola em prol de uma educação antirracista. Parafraseando as reflexões desse momento de aprendizagem:
Compreender que o letramento racial começa cedo exige a capacidade de reescrever trajetórias de dor, transformando-as em narrativas de emancipação desde a primeira infância. O conceito de "suturas psíquicas", destacado por Kiusam, reflete a essência de uma prática pedagógica que restaura o espelho fragmentado pelo racismo estrutural, devolvendo às crianças negras o reflexo de sua ancestralidade, beleza e dignidade.
Se a sociedade frequentemente oferece a exclusão, a mediação literária atua como ferramenta emancipatória e de cura, construindo pontes de empatia e desconstruindo uma visão de mundo unilateral. Trata-se de garantir um pertencimento pleno, diverso e acolhedor, no qual o racismo não limite o imaginário e o ato de educar se estruture a partir do protagonismo, e não do sofrimento.
Nesse sentido, é preciso mudar o ponto de partida para a potência. Tia Nastácia não se limita ao trabalho doméstico nem se reduz aos estigmas racistas direcionados à sua figura na literatura tradicional; ela ascende ao posto de matriz criadora da boneca mais famosa do país. Da mesma forma, Lena Martins cria uma arte genuína e repleta de afeto, transformando os nós da vida em símbolos de resistência e recriação do próprio percurso. É exatamente aqui que, ao reunir os pontos e linhas da minha trajetória, traço um fio condutor entre início, meio e fim. Minha prática docente me convida ao desafio de propor uma ação coerente com as minhas inquietações, tirando-me da zona de conforto. O resultado é a construção de um projeto pedagógico alinhado às infinitas possibilidades que surgem quando ousamos sonhar. E isso não é romantização: é a história sendo escrita a partir de um lugar de nutrição, e não de escassez.
Na prática, essa postura ganha corpo no cotidiano da sala de aula. Para o grupo de Educação Infantil de período integral em que atuo, os ursinhos e objetos de afeto como as naninhas já são parte integrante da rotina, seja no momento do sono ou nas horas de recreação. Assim, trazer para esse espaço a pequena Emília — como memória do que já vivenciamos em abril — e convidar a Abayomi para que a turma a conheça será uma das propostas do projeto. Tudo isso em uma roda de conversa, acompanhada da confecção da própria bonequinha diante dos olhos atentos das crianças, culminando com a leitura do livro Vida que Voa, de Lena Martins (Editora Zit, 2017). A proposta busca criar um momento acolhedor para os pequenos, para as bonecas e para o encantamento: esse é o meu encontro precioso para traduzir as tecnologias ancestrais em uma linguagem acessível à infância. Afinal, quando o dever chama, a "bonequeira" em mim reaparece com seus apetrechos para dar contorno às ideias, que ganham vida na imaginação e nas mãos de cada criança.
Olhando para a minha família, guardo com carinho as tardes na casa da minha avó paterna, quando aprendia, ainda na adolescência, a fazer bordado com fita em toalha de lavabo — eram pequenas tulipas cor-de-rosa com cabos verde-oliva que o tempo acabou desgastando. Soube recentemente que a minha tia — que me acompanhava nas oficinas de artesanato e empreendedorismo — fez um galo para ser o par da galinha Conchita, peça que confeccionei ainda na faculdade para a minha prima Mariana, hoje também professora. Da minha avó materna, veio o aprendizado de fazer a bainha dos panos de saco com linha colorida, apenas cortando os fios da trama do tecido, além de, é claro, manter os ursinhos e bonecas em sacos plásticos para evitar o pó, hábito que mantenho até hoje. Já com a minha mãe, aprendi os primeiros pontos de crochê; posso não dominar muito a arte de entrelaçar fios, mas correntinhas com certeza sei fazer.
São essas as mulheres da minha vida. Seja na literatura ou na vida real, a figura feminina do passado e do presente é aquela que conta histórias, entretece lutas e se dedica a quem ama. Ela transmite carinho e usa sua arte para trazer harmonia e beleza ao lar. É o afeto que atravessa, ponto a ponto, o tecido do tempo, resistindo aos nós do apagamento e das violências impostas. É na crueza dos dias, nos detalhes e no empenho que a mulher deixa sua marca indelével como matriz da vida.
Antes do arremate final, cabe registrar que o primeiro emprego do meu irmão foi como abastecedor em uma fábrica de costura na cidade de Poá (SP), onde hoje sou servidora pública. Simples e um pouco irônico? Talvez!
Por fim, o que permanece é o desafio de costurar e ressignificar histórias — mas, desta vez, ao lado das crianças. Vamos ver no que isso vai dar… Até porque você já deve saber que eu não dou ponto sem nó!
Mogi das Cruzes – SP, setembro de 2026.
Fotos: Acervo pessoal