Uma gota de caos
Agosto 2026
Sexta-feira! Aquela típica alegria de ter vencido mais uma semana. Ao meio-dia, já no trajeto para o trabalho, saindo da estação de trem na cidade de Poá, fico feliz por reencontrar uma amiga. Mas logo essa estranha calmaria cessa.
Chegando à escola, aproximo-me da porta da sala e já ouço os burburinhos: crianças rindo e pulando no colchão com cobertores e ursinhos. Meu Deus! Mais um dia daquela bagunça no horário do soninho. Não consigo acreditar no que está acontecendo.
Então lá vamos nós, com a coragem típica de toda sexta-feira: nina um, chama a atenção de outro, leva um à secretaria porque a criança olha para você e continua balançando a cadeira com os pés... Senhor!
Depois de muito esforço e com a ajuda de um bom anjo chamado Amanda, todas as crianças dormem, faltando apenas vinte e cinco minutos para despertarem. Seguimos para o segundo período: uma roda de conversa para reforçar os combinados, uma atividade musical para despertar o corpo, algumas cantigas de roda como "Peixe Vivo" e uma atividade teatral com "A Linda Rosa Juvenil". Brincamos de passa-anel, terra e mar, "meu mestre mandou", blocos de encaixe e desenho livre... Tudo vai bem, até que uma criança começa a apertar o braço da outra por causa do ursinho.
É hora do lanchinho. Passam-se poucos minutos e ouço:
— Tia, ela comeu todas as minhas uvas da lancheira!
A criança em questão olha para mim com olhos arregalados, esperando, quem sabe, uma bronca, mas o que posso eu fazer? Ela está com fome! Nesse meio-tempo, alguém no fundo grita:
— Tia, quero mais suco!
Deixo a turma sob o olhar atento das inspetoras e saio para escrever o bilhete sobre o ursinho e avisar a gestão da necessidade de revisar o uso das lancheiras. Enquanto isso, ouço o barulho vindo do refeitório. Sinto medo, mas continuo a tarefa.
Volto para buscar a turma e escuto que a criança entediada se levanta da mesa e começa a girar a lancheira no ar, acertando o rosto da colega. No banheiro, dois meninos brincam na torneira de molhar o cabelo. Entro na sala e começam os esforços para acalmá-los para o horário da saída. A criança que levou o apertão no braço e a lancheira no rosto agora chora pela terceira vez, porque bateram no ombro dela. Nesse momento, o desespero bate e eu já estou no clássico:
— E agora, quem poderá me defender?
Sim, ela: a dipirona de um grama.
Em seguida, a criança grita no fundo da sala pedindo para amarrar o cadarço — tudo normal, se eu, ao retomar a postura, não batesse a cabeça na ripa de madeira que sustenta o varal de atividades.
Retorno à cozinha para encher a garrafinha de água. Pressiono a bomba do galão, que excede e vaza, molhando o chão. Eu poderia pedir para alguém limpar, mas estou na função automática de manter o ambiente habitável. Corro até a mesa, pego as folhas do rolo de papel e lá vou eu: uma, duas, três vezes limpar o chão... afinal, algum desavisado pode aparecer e escorregar, e essa culpa já seria demais numa sexta-feira de agosto.
Uma colega entra e diz:
— Calma, você está nervosa... Quer um abraço?
Dado o tom irônico da pergunta, evito o deboche. Volto para a sala; a criança que estava correndo por baixo das mesas vai agora para a secretaria.
O pai chega à porta para buscar a última criança e pergunta:
— Foi tudo bem hoje?
Ao que respondo:
— Sim! Foi tudo bem.
E antes de o dia finalmente terminar, estou eu indo pela calçada quando sou surpreendida pela ausência de palavras, mas pela urgência do abraço pequenino de uma das minhas crianças, que havia faltado na aula.
Agora sim, a turma está completa. Fim do dia.
Fotos: Acervo pessoal.