A magia dos contos: Quando o patinho feio saltou para o pátio da
escola
Julho, 2026
Hans Christian Andersen jamais saberá que sua obra percorreu o tempo e o espaço para pousar literalmente bem no pátio da minha escola.
Foi aos seis ou sete anos que ganhei a primeira coleção literária: “O Tesouro dos Contos de Hans Christian Andersen” (coleção de 1996). O Patinho Feio é meu conto favorito, a primeira história de que me lembro e, desde então, a jornada do patinho me acompanha pela vida. O livrinho permanece comigo até hoje entre os meus pertences de maior valor.
O fato aconteceu em 2024, em uma escola de Educação Infantil em tempo integral. Ao iniciar o projeto de leitura com as crianças, no qual cada uma teria que escolher seu livro favorito para compartilhar com a turma, dei o exemplo e decidi compartilhar minha própria experiência. E então o livro foi parar na sala de aula.
A leitura foi dividida em três dias para ser melhor absorvida na rotina do grupo. Apenas no terceiro dia algo incrível aconteceu: um pato de verdade apareceu na escola!
Meu período de trabalho era vespertino e fazia parte da minha rotina despertá-los para o segundo período de atividades. Quão grande foi a minha surpresa ao perceber que alguns já estavam acordados e, ao me verem, a reação imediata foi unânime e cheia de alegria: “Tinha um pato aqui na escola! É o patinho da sua história, Prô!”
Ninguém sabia de onde o pato tinha vindo; eu já trabalhava há três anos na mesma unidade escolar e não havia caso parecido. O pato não retornou após aquela aparição e, pelo tempo em que permaneci ali, não tive mais notícias dele. Foi uma única e surpreendente visita.
Àquela altura, muitas coisas estavam acontecendo no ambiente de trabalho que realmente deixavam chateada. A decisão de criar um pequeno projeto literário e inverter a ordem, pedindo que as crianças trouxessem seu livro favorito, foi talvez uma decisão inconsciente de apaziguar meus conflitos internos. Enfim, não posso julgar como simples coincidência a presença do pato no pátio da escola na mesma semana em que iniciei a leitura. Algo ali aconteceu e eu não consigo explicar.
O que pode parecer apenas um detalhe nessa história toda é que não era um cisne, era um pato. E ele não era feio, era intrigante, pois aquele não era seu habitat natural — assim como eu naquele momento. O que mais me encanta nessa experiência é que, assim como na vida real e na história do patinho, não existe um pó de pirlimpimpim, uma varinha de condão ou palavras mágicas.
É na fenda entre o real e o imaginário que, às vezes, intuímos caminhos que a própria razão desconhece.
Na história, o reflexo na água revela a sua verdadeira essência. É o momento decisivo em que ele se reconhece como um cisne, e não um pato. Ele finalmente encontra a si mesmo.
A ave, ao aparecer na escola, foi imediatamente reconhecida pelas minhas crianças como "o pato da professora", mas eu mesma não consegui chegar a tempo à escola para ver com os meus próprios olhos. Restou-me apenas uma foto. Assim, no fim do dia, aquela história já não me pertencia… Era outra, a de um pato que saltou das páginas do livro para o pátio apenas para transformar um dia comum em um dia extraordinário.
Aqui, o começo de uma longa história...
Foto: Stefanie Santos
Fotos: Acervo pessoal.