O meu carrinho de giz
Julho, 2026
Às vezes, a rotina tenta distrair nosso olhar de encantamento pelas coisas simples. Houve momentos em que tudo parecia meio cinza, em que o mundo silenciava por fora e por dentro. Mas renascer todos os dias é a promessa de uma alma que não se entrega aos dias difíceis.
Assim, em uma tarde qualquer, entre um pouco de cola, cor e textura, uma nova possibilidade nasceu: um estojo comum ganhou nova identidade. Para quem olha de fora, ele talvez mantenha a mesma função de sempre. Para mim, ele se tornou o meu carrinho de giz. Ganhou rodinhas e não pode mais passar indiferente pelo ambiente. Em um espaço comum, como a sala de aula, ele se tornou único.
O sistema nos exige ser como esse estojo antes da transformação: rígidos, estáticos, apenas esperando para serem usados até que o conteúdo acabe. Mas, e se o estojo se movesse? E se a sua função não fosse apenas a de repousar sobre a mesa, mas a de trilhar o seu próprio caminho?
No ato de transformar um simples objeto de organização, emergiu uma reflexão profunda sobre autenticidade e a urgência de não reproduzir o "mais do mesmo". Em um mundo profissional que tantas vezes tenta nos reduzir ao reflexo do trabalho alheio, assumir-se único é um ato de resistência.
O meu carrinho de giz não vai durar para sempre. Talvez as rodinhas falhem ou o encaixe se solte. Mas a intencionalidade do gesto — a de criar algo que representa a minha singularidade — é algo que ninguém tira.
Quando decidimos parar de pedir licença para ser, passamos a ensinar o que realmente importa: que é possível mudar de forma sem perder a essência. Não há necessidade de justificativas ou permissões.
Fica apenas o lembrete: adicionar rodinhas ao que é estático pode ser uma excelente estratégia para quando você decide que não vai mais se adaptar.
Fotos: Acervo pessoal - Érika Santana do Nascimento