Agosto, 2026
Nota:
O texto a seguir é a justificativa íntegra do meu planejamento pedagógico para a Mostra Cultural. Decidi compartilhá-lo aqui no blog, sem cortes, porque acredito que a reflexão sobre o chão da escola merece ser lida de forma humana, viva e transparente.
Não busquei aqui o rigor técnico-acadêmico ou a citação de teóricos, mas sim a autoria sincera de pensamentos alimentados pela rotina com as crianças, pelas rodas de conversa e pelas memórias da minha própria trajetória.
Seja bem-vindo a esta travessia. Boa leitura!
Com a chegada do mês de agosto, o tema do folclore renasce naturalmente no universo infantil como um momento de resgate da nossa história e de suas marcas no tempo. Paralelamente, surgiu a proposta da Mostra Cultural 2026 com o tema central: “Quanto de África tem no nosso dia a dia? (Educação Infantil – Lendas, brincadeiras e cantigas)”.
Durante o replanejamento após as férias de julho, as professoras de educação infantil debateram as duas abordagens no segundo período. A votação empatou entre priorizar o folclore tradicional ou a temática afro-brasileira. Diante desse cenário, aflorou a minha inquietação: por que fragmentar esses saberes? Por que não unir as propostas em vez de dividi-las?
Reconhecer a união dos temas não significa reduzir a história afro-brasileira ao folclore, mas sim reconhecer que a cultura popular brasileira é indissociável da matriz africana. Assim nasceu este projeto, da certeza de que, independentemente do afluente, ambos os caminhos se encontram e deságuam em um mar de vivências que orientam a travessia dos nossos pequenos.
A literatura é o nosso chão. A experiência disparadora parte da leitura do livro Olelê: uma antiga cantiga da África (Fábio Simões, Ed. Melhoramentos, 2015), uma obra carregada de ancestralidade que transborda das páginas para o nosso espaço de convivência em sala de aula.
O livro conta a história de um vilarejo no Congo invadido pelas águas do rio Cassai. Liderados porKala, o morador mais velho, os habitantes se unem em suas canoas para enfrentar a forte correnteza. Para ganhar força e coragem na travessia, eles cantam uma antiga canção da cultura Bantu, transmitida de geração em geração.
Essa narrativa também não se distância da realidade vivida pelas nossas crianças. Na cidade de Poá, o período de chuvas frequentemente traz o caos, com a água invadindo ruas, casas, comércios e o próprio chão da escola. Recordo-me do início do ano, em uma tarde de fevereiro, quando o céu escureceu rapidamente e a água da chuva inundou o pátio, deixando-nos ilhados na sala de aula no piso superior. Naquele instante, fizemos a única coisa que podíamos fazer: cantamos. Próximos uns aos outros unimos nossas vozes para enfrentar o medo dos raios e o barulho da água forte que caia da calha, manifestamos ali, a nossa própria ancestralidade e o sentido de comunidade, provando que as estratégias de coragem do rio Cassai também atravessavam o nosso território.
O questionamento "Quanto de África tem no nosso dia a dia?" encontra um caminho que atravessa oceanos. Sob o impacto da colonização, o genocídio indígena, a diáspora africana em terras ancestrais e a imigração de tantas outras culturas se entrelaçam em um mesmo chão. Ainda assim, a memória que resiste ao apagamento desses territórios produz a maior riqueza de um povo: a sua cultura — matriz de onde nascem os saberes tradicionais e uma identidade única, visíveis na linguagem, na culinária, nas celebrações e no modo de narrar a própria vida.
A água é origem: está no ventre da mãe africana e indígena que carrega o mundo em si. É também travessia: cruza oceanos, mares e rios em embarcações que vão da pequena canoa às grandes naus, transportando histórias de deslocamento forçado, mas também de resistência. Representa, ainda, a força imparável da natureza diante da ação humana.
Os caminhos das águas percorrem muitos lugares, mas ganham um sentido especial na cidade de Poá. Se por um lado o município sofre com o escoamento das águas nos períodos de chuva, por outro, ele as celebra quando brotam generosas da terra — como bem nos recorda a história da Fonte Áurea e sua importância para a nossa identidade local. Ela está no próprio nome da cidade, no brasão do município e até no adesivo estampado na van que transporta os nossos alunos, mostrando que a história da nossa água também acompanha a rotina das crianças de casa até a escola.
É na rotina da sala de aula, no despertar do descanso entre o período da manhã e as atividades da tarde, que repousa a nossa história: no acolhimento, nas cantigas e nos acalantos. A música não está em nosso plano de aula apenas para preencher o tempo; ela habita a voz da criança e o gesto de quem a acolhe no pedido afetuoso: “Tia, vamos brincar de novo?”
Ao formar a roda e dar as mãos, sustentamos a memória e a resistência de gerações. Neste projeto, as canções também carregam essa travessia de forma simbólica. Quando cantamos “A canoa virou”, “Peixe vivo” ou “Fui no Itororó”, tocamos nas incertezas dessas travessias. É nessa vivência em roda que embalamos o cotidiano da escola como uma preciosa pérola sonora.
Se o mar representa o desconhecido e a imensidão salgada, a água doce é a nascente, o colo e a fonte que nutre, lava e dá vida. A água é a força feminina que acolhe no ventre ou no abraço, seja a mãe, a avó ou as rezadeiras e griôs, guardiãs da força e dos saberes de seus territórios. Essa presença traduz a essência de um Brasil cuja terra foi parida pela mãe indígena, mas embalada nos braços da mãe africana. É exatamente essa matriz do afeto, da oralidade e da luta que atravessa as canções pra ninar e as memórias de um país que se ergueu sobre as dores e a resistência de suas mulheres.
Nessa mesma tradição do cancioneiro popular, a interpretação de "Pedrinha Miudinha" por Maria Bethânia, no álbum Pirata (2006), revela que a mulher que canta não se limita ao próprio filho biológico: ela canta para a infância do mundo. Trata-se de uma maternidade comunitária e ancestral que se ergueu em meio às violências da escravidão — uma cicatriz de resistência gravada no afeto. É assim que o colo se torna um leito de rio sempre aberto, onde a memória do nosso povo recusa o apagamento e se reapresenta, viva e generosa, para orientar a travessia dos pequenos.
Da água doce do rio, essa força feminina deságua no mar, onde matrizes míticas como Iara e Iemanjá mostram que o cuidado também é mistério e transformação. Iara, a Mãe-d'Água, nasce da fusão do Ipupiara originário com a sereia europeia. Já o culto a Iemanjá evoca o amparo e a resistência do nosso povo, provocando reflexões sobre o embranquecimento de sua imagem e o sincretismo com figuras marianas, como Nossa Senhora dos Navegantes e Nossa Senhora das Candeias. Se a água doce é o colo que nutre e dá vida, a água salgada é o horizonte que nsustenta a travessia.
Quando estávamos brincando de roda e cantamos a música Marinheiro Só na versão do grupo Tiquequê, uma das crianças veio até mim e disse:
— Prô, a minha mãe disse que essa música é feia!
Ao que respondi:
— Sua mãe lhe disse o porquê de essa música ser feia?
Ela me respondeu que não — o que não me surpreendeu. Então, perguntei:
— Mas você gostaria de dançar com os seus amigos?
Ouvi um "Sim!" entusiasmado. E voltamos a brincar de roda.
Quando falamos das cantigas e das memórias que elas carregam, frequentemente esbarramos em pensamentos cristalizados como o narrado acima. São versos que nascem da interação do ser humano com o seu ambiente — a vegetação, os animais, as águas, a vida cotidiana — e que contam histórias através da arte. Nesse sentido, eles ganham significado único em rituais, celebrações e danças de roda em diferentes lugares do nosso território. A canção Marinheiro Só não é apenas uma música infantil que "virou" religião, nem apenas um ponto religioso que "virou" brincadeira. Aqui, a vida cantada se mantém viva, permitindo-nos reconhecer que o universo infantil brasileiro é também um grande reservatório vivo e pulsante da memória oral do nosso país.
Reservamos aqui o espaço para o primeiro território da criança: a família. Trata-se de um espaço real e simbólico na travessia de histórias e emoções que, embora nem sempre seja preenchido apenas por afeto, mergulha em águas profundas carregadas de ausências, medos, perdas e vivências de superação. É nesse território que ouvimos o dito popular "Filho de peixe, peixinho é!". É nele também que presenciamos a fé cotidiana: quando a tempestade se aproxima e o granizo começa a cair, alguém corre ao fogão, coloca um pouquinho de sal no canto e pede a Santa Bárbara que abrande a chuva.
A rede de pesca, que para muitas famílias é o instrumento de onde se retira o sustento, transforma-se aqui em uma rede de afetos que costura as nossas histórias. O convite deste projeto é olhar para a família e perceber como as pequenas falas, as cantigas, os pratos culinários e as devoções cotidianas carregam uma densa ancestralidade. São saberes que nos referenciam, nos ajudam a descobrir quem somos e contam sobre nós antes mesmo da nossa chegada ao mundo.
É no chão da sala de aula que os saberes tradicionais se encontram de forma organizada, por meio do planejamento pedagógico. Contudo, é a vida em família gentilmente convidada a ocupar esse espaço e a ser celebrada em comunidade que garante o verdadeiro protagonismo e o sentimento de pertencimento.
Como o poeta bem traduziu nos versos de Planeta Água, encaramos em nosso pequeno espaço o desafio de traduzir um mundo tão vasto quanto a imensidão do oceano por meio de jogos, cantigas e do faz de conta.Nós, as crianças, a cultura e os saberes tradicionais pertencemos à mesma terra. Essa terra que nos dá vida e alimento é o lugar onde nossas origens ganham palco e sentido no cotidiano, por meio das nossas brincadeiras e interações.
Já dizia Mestre Verdelinho, mestre da cultura popular alagoana, em sua música Grande Poder:
“A terra deu, a terra dá, a terra cria,
A terra voga, a terra dá o que tirar...
Tudo o que vive nesta terra pra esta terra é alimento.”
E quem fala sobre toda essa travessia vem de Mogi das Cruzes - SP. Talvez seja importante frisar que pensar sobre o tema "territórios e encontros" seja justamente um exercício de olhar para a própria nascente que, neste caso, vem de Alagoas e São Paulo, mais precisamente de Santana do Mundaú (AL) e Salesópolis (SP). Minha história representa, também, o encontro de saberes tradicionais.
As festas juninas são para mim um evento muito especial, principalmente pela colheita do milho e pela doçura da pamonha. Mas não de qualquer pamonha: aquela feita na folha do caeté (nome popular de uma planta nativa da Mata Atlântica, parente da bananeira e muito encontrada em brejos, como as do gênero Heliconia). Lembro-me das últimas reuniões da família materna, quando a gente acordava cedo para ajudar a descascar o milho e a raspar o sabugo com a colher — até porque ninguém me deixava usar o ralador, com medo de eu cortar os dedos. Além disso, meu avô e meus tios iam até o “pé da serra” do Itapeti buscar as folhas de caeté. Então, lavávamos e dobrávamos as folhas, adicionávamos a mistura no canudo e bora para o tacho no fogão a lenha! Tempos depois, lá estava ela: bonita e pronta para ser saboreada ainda quentinha. Já minha avó paterna, quando recebia uma delas, sempre dizia que em Alagoas costurava-se a palha do milho na máquina de costura. Aqui, a raiz indígena, a cultura caipira e a presença fundamental da planta nativa remontam à herança da minha família materna, que vai ao encontro das memórias de minha avó paterna.
Hoje a família já não se reúne mais para esses eventos; algumas dessas pessoas já não estão mais entre nós. Surpreendentemente, neste mês de junho, compramos, depois de muito procurar,uma pamonha feita na folha do caeté. Ah! Parecia uma festa: antes mesmo de degustar a pamonha e cortar o barbante preso à folha, fui levada de volta para aqueles dias, sentindo o cheiro da fumaça. Ao provar, percebi que era muito mais do que massa de milho; era muita história a recordar.
No encontro simbólico dos rios Mundaú e Tietê, é fascinante perceber como esse desaguar em Mogi das Cruzes forma a minha nascente e conta sobre quem eu sou. Na Educação Básica, reconhecer as próprias origens é o primeiro passo para saber aonde queremos chegar. É assim que guiamos nossas crianças, abrindo espaço para que elas e suas famílias também acolham e compartilhem suas raízes e memórias.
Concepção, autoria e planejamento pedagógico: Profª. Érika Santana do Nascimento
Mogi das Cruzes – SP, julho de 2026.
Fotos: Acervo pessoal