É primavera!
Setembro 2026
Era uma quinta-feira de setembro, um dia ensolarado, e o ar primaveril inspirava uma atividade ao ar livre: cores, muitas cores — mas não tinta, e sim giz de lousa molhado, numa proposta de testar cores e experimentar texturas. Como não temos um lavatório externo próximo ao painel de azulejos, achei por bem não criar cenários tão desafiadores, por assim dizer. Então lá fomos nós. Levantada a turma do colchão, higiene, troca de roupas e roda de combinados (porque tudo é combinado), embora a palavra flexibilidade nem sempre pareça combinar com a rotina.
Antes de ir, avisei que, durante o soninho deles, as crianças de outra turma já haviam pintado parte do painel e nós iríamos usar a outra metade. E assim foi. Mas, quando chegamos lá, minha colega do corredor teve a mesma ideia. E o painel, que já estava diminuto, ficou ainda menor.
Com espaços limitados, as crianças ainda conseguiram registrar algo, mas uma cena com a colega usando tinta guache e as crianças tentando pegar os gizes molhados no pequeno pote de plástico, com mãozinhas pequenas e a urgência típica da infância, só poderia mesmo se tornar um caos.
A colega soltou um leve sorriso ao lado da minha expressão de dor física, dado o momento intenso de crianças querendo correr pelo espaço em que não era permitido e a mão no copinho:
— Tia, quero outra cor! — disse uma.
— Eu também! — disse a outra.
— Então troquem — respondi.
Mas isso não é suficiente: ela não quer um giz pela metade, quer um giz colorido inteiro só para ela. Enquanto isso, uma pequena passa por mim sem ser notada, pega um pote de tinta guache da professora vizinha e começa a pintar os desenhos da primeira turma. Eu, até então, achei estranho o giz com aquela pigmentação, mas não perguntei; estava ocupada demais tentando consolar a criança que chorava porque o amigo tentou pegar os blocos de encaixe que levei — porque sempre tem uma segunda opção na minha sala.
O dia estava quente. A professora da primeira turma passa pela porta, olha para mim e diz:
— Estes eram os desenhos da minha turma.
Sorrio e fico a pensar: Deus! É só um painel que está do lado oposto da sua porta. As crianças já tinham desenhado, ela poderia ter finalizado com uma foto... Mas não. Ela realmente teceu esse comentário.
Volto a olhar para a turma e as crianças estão brincando de espadas com os blocos de encaixe, enquanto outra usa a espada para cavoucar a rachadura da parede. A auxiliar da professora vizinha chega e as duas começam a conversar, trocando olhares para mim de vez em quando. Enquanto tento conter as crianças para que não corram para o lado oposto, digo:
— Por que não desenhar no chão? Bora!
Mas a criança ainda chora agarrada à minha cintura. As crianças ainda disputam o giz do potinho. Quando finalmente digo:
— Amiga, me ajuda aqui? Olha essa criança para eu poder pegar os que estão correndo para lá! — e aponto na direção oposta.
Nesse meio-tempo, a criança que havia pegado o pote de tinta guache da professora vizinha carimba as duas mãos na parede do corredor. Eu não ligo, mas a auxiliar corre para limpar. É desesperador!
Quando finalmente retornamos para a sala, suspiro aliviada. Mas, ao perceber que metade da sala não estava me acompanhando, vejo o banheiro e a pia abarrotados de crianças. É uma pia pequena. Não dá. A minha auxiliar retorna do almoço, ajuda na organização e diz: — Vai tomar uma água, prô.
Ali, ao caminhar em direção à cozinha, indago a mim mesma: Por quê?! Por que eu coloquei essa proposta no plano de aula? Por que não usar o guache em bastão? Por que o giz?
Chegando ao galão, só vejo o fundinho de água e nada capaz de acalmar o espírito; para completar, a água vaza da garrafa. A colega que está no intervalo da turma entra e diz:
— Educação Infantil, né?
Eu, com um sorriso tenso, respondo:
— É!
Se eu não tinha planejado o meu dia com tinta guache, é porque meu psicológico não daria conta naquele momento, mas tudo foi por água abaixo. Às vezes, os seus planos de aula não são os planos da turma. Às vezes, o controle não liga muito para o seu planejamento e parece grifar com marca-texto em glitter a palavra: flexibilidade!
No fim, o dia terminou agitado como sempre. E mais do que correr pelo concreto e pelo painel de azulejos, o que tentei imprimir foi um ar de natureza num local que não tem um palmo de terra para descarregar tanta energia.
Saindo pela calçada da escola, respirando fundo e tentando recobrar o fôlego de uma quinta-feira, sinto dois bracinhos envolverem a minha perna direita: é uma das minhas crianças esperando para embarcar na van escolar. Ela me abraça e grita:
— Tiiiiiaaaaa!!!
Fotos: Acervo pessoal.