Agosto 2026
Mostra Cultural: Sequência pedagógica baseada em vivências, territórios, águas e infâncias.
O ponto de partida: Aprender sobre o mundo por meio do espaço vivido, da observação sensível e da imaginação criadora das crianças.
As recorrentes chuvas de verão em Poá. Foi nesse cenário em que a turma ficou ilhada na sala de aula durante uma forte tempestade em fevereiro. Marcado pela união e pelo canto coletivo para enfrentar o medo, esse ato transformou o caos em uma poderosa manifestação de ancestralidade, senso de comunidade e coragem compartilhada.
A partir da vivência da turma que flui como o rio no trajeto de casa até a escola, resgatamos a água como símbolo de origem ancestral, travessia e resistência dos povos africanos e indígenas.
Essa força universal conecta-se à identidade de Poá: uma cidade que oscila entre o desafio do escoamento das chuvas e a celebração de suas riquezas como a Fonte Áurea, unindo a memória coletiva à rotina das crianças.
A experiência dos pequeninos encontrou profundo eco na leitura do livro Olelê: uma antiga cantiga da África, cujos personagens superam a cheia do rio Cassai entoando uma canção ancestral. A conexão revela como a literatura funciona como nosso chão, unindo a narrativa congolesa à realidade das crianças para provar que união, comunidade e estratégias de coragem atravessam territórios.
Autor (Pesquisador/Divulgador): Fábio Simões: nascido no Rio de Janeiro. Músico, pesquisador, artesão e educador, cria instrumentos musicais africanos e afro-brasileiros diversos. Participou de um projeto de intercâmbio cultural em Moçambique, na África, onde atuou com pesquisa e produção de instrumentos musicais moçambicanos tradicionais.
Durante a leitura mediada do livro Olélé: uma antiga cantiga da África, vivenciamos momentos genuínos de descoberta e leitura de mundo. Ao observar a página em que a expressão "OLELÊ, OLELÊ!" aparece disposta em uma linha curva ascendente, uma das crianças levantou-se do tatame e, apontando o dedo com entusiasmo em direção ao texto-ilustração, exclamou:
— Olha, tia, é uma onda!
Em outro momento do livro, ao lermos a palavra Luka, Luka! — que em lingala significa "remem, remem..." —, a sonoridade provocou um novo estalo de identificação na turma. Outra criança logo reagiu:
— Tia, é igual o nome do meu irmão.
— E do Davi também!
Tais episódios revelam a potência do olhar infantil, capaz de perceber a poesia visual na tipografia e, ao mesmo tempo, estabelecer conexões sensoriais e afetivas com a linguagem, relacionando o código escrito às suas vivências e identidades muito antes da alfabetização formal.
Nada expressa melhor a essência da infância do que transformar elementos simples em grandes aventuras. Com massinha de modelar e mini barquinhos de papel, as crianças deram asas à imaginação, moldando cenários e recriando, com autonomia e sensibilidade, a própria jornada da embarcação. Uma vivência rica em descobertas, onde cada detalhe construído refletiu o olhar único de cada aluno sobre o mundo.
Chegou a hora mais esperada: um mergulho literário que se transforma na experiência de viver a história sem precisar sair do chão da escola. Transformamos os colchonetes em embarcações, criando o cenário perfeito para a nossa aventura.
Ao ouvirmos o chamado "Olelê!", as crianças prontamente se posicionaram em seus lugares. Unimos a coreografia aos movimentos ondulares dos braços, enquanto entoávamos "Olele Molibà Makasi". Ao pronunciarmos "Luka Luka", todas remaram juntas, em sintonia. Conforme a travessia avançava, o barco ganhava ritmo, exigindo força, coordenação motora e coragem de cada um dos nossos pequenos aventureiros.
Viver o jogo simbólico é, acima de tudo, um convite para apropriar-se da narrativa, explorar os limites do próprio corpo e exercitar a cooperação. Nesta jornada, confirmamos que, embora o desafio seja pessoal, a experiência de aprender e crescer só faz sentido porque não estamos sozinhos.
Movidas pelo entusiasmo da vivência coletiva, as crianças exploraram o mundo por meio de recursos digitais, como o Google Maps e o Google Earth, e do manuseio do globo terrestre, localizando desde a própria escola e pontos centrais da cidade — como a praça da Bíblia e a praça dos Eventos — até paisagens distantes, como o rio Cassai do outro lado do Atlântico, culminando na descoberta lúdica de que a cor azul representa os mares e oceanos ao exclamarem, maravilhadas:
— E tem muita água né tia?!
Mergulhamos no estudo da vida e das infâncias ribeirinhas para compreender como vivem os povos das águas. O foco principal da nossa reflexão foi a vivência das crianças ribeirinhas — desde os momentos de lazer no rio até o transporte escolar feito de barco. A turma acompanhou com entusiasmo esse cotidiano único, estabelecendo comparações com a nossa rotina e revelando um contexto escolar fascinante e muito diferente da nossa realidade.
Foi marcante observar a alegria e o espanto dos pequenos ao verem outras crianças pulando livremente na água, um cenário que gerou contrastes imediatos com o cotidiano urbano deles. Esse momento de escuta atenta e de ampliação cultural gerou reflexões preciosas e falas espontâneas encantadoras, como:
— Eu brinco assim na praia, tia!
— A piscina de água, a minha mãe usa a mangueira para a gente brincar.
Vivências como essa ampliam o repertório cultural da turma, estimulando a empatia, a curiosidade pelo mundo e a valorização das diferentes formas de infância e viver em sociedade.
Entre tantas descobertas, é sempre bom lembrar que a gente pode fazer uma pausa para uma brincadeira como Terra-Mar. Com toda a sua simbologia de lá para cá, o momento nos ensina que, não importa a cultura ou o lugar, é sempre tempo de diversão!
Encontramos nas rodas e nas cantigas o nosso momento de criação. A turma definitivamente escolheu "A Canoa Virou" como a cantiga favorita. As crianças criaram sua própria versão: ao girar, a criança ia para o centro da roda e, enquanto girava, tentava escapar por um dos espaços que as mãos firmes tentavam não soltar. Mas a diversão mesmo era quando cruzavam os braços e, entrelaçados, se aproximavam do amigo; no abrir e fechar da roda, o momento mais aguardado era a contagem: "um, dois, três, de bumbum no chão outra vez!" Aqui, a cantiga tornou-se um instrumento vivo da tradição e da cultura popular, alimentado também pelas ideias e recomeços próprios da infância.
Na sequência da vivência, um momento essencial foi a representação da experiência por meio do desenho de livre expressão. Munidas das memórias corporais e da intensidade emocional do jogo simbólico, as crianças puderam transpor suas vivências para o papel.
Com traços espontâneos e cheios de significado, elas recriaram a aventura pelo Rio Cassai, externalizando suas percepções, emoções e a compreensão da narrativa com grande criatividade e autenticidade.
Uma folha de papel e muita liberdade podem transformar qualquer momento em uma grande viagem! Nesta proposta de criação livre, as crianças customizaram seus próprios barquinhos de dobradura, ilustraram sua rede de afeto a bordo e montaram uma correnteza única utilizando recortes de papel colorido para iniciar sua própria aventura.
Pesquisa "A Cultura do Brincar": Investigação em sala sobre brinquedos e brincadeiras da infância dos familiares para comparar o passado e o presente.
A proposta de resgate das memórias familiares trouxe um retorno emocionante e repleto de significado. As famílias participantes compartilharam tesouros da sua infância: queimada, cantigas de roda, peteca, pula corda, o brincar livre no rio, pega-pega e a arte de inventar os próprios brinquedos, além do hábito de ouvir histórias dos avós.
Levamos esse relato para a roda de conversa para investigarmos com as crianças: "Nós já brincamos disso? Vocês conhecem?". A interação foi profunda e reveladora, mostrando que o brincar de antigamente ecoa no nosso parquinho de hoje.
Ao explorarmos a peteca, as cantigas e as brincadeiras no rio, criamos uma ponte viva com a nossa pesquisa sobre os povos ribeirinhos e a cultura africana — revelando que o brincar atravessa o tempo e nos conecta às nossas raízes.
O Quanto de África existe no nosso dia a dia?
A África habita o nosso cotidiano por meio da dinâmica de espelhos: no reconhecimento das semelhanças entre os povos, na coragem compartilhada para enfrentar os desafios e na força do apoio da comunidade, da família e dos nossos mais velhos e mestres sábios.
Nesta proposta, o elemento água atua como o grande fio condutor da nossa identidade:
Na geografia de Poá: como enfrentamento do desafios cotidianos das águas;
Na ancestralidade indígena: como essência da vida e dos saberes originários;
Na memória africana: como símbolo de luto resistência e travessia forçada, honrados com profunda reverência.
Ao costurar as vivências reais das crianças — como o enfrentamento coletivo das chuvas na escola e a travessia literária do livro Olelê —, promovemos uma educação antirracista e étnico-racial viva desde a primeira infância.
Um espaço onde a infância se reconhece, valida suas raízes e descobre que a união, a memória e a coragem não têm fronteiras.
O valor deste percurso está em revelar como conceitos tão profundos — como travessia e ancestralidade — ganham vida no cotidiano simples das crianças, em cima de uma carteira escolar.
Nenhum barco avança só: na travessia do aprender, é no incentivo mútuo que encontramos o vento para ir mais longe.
Concepção, autoria e planejamento pedagógico: Profª. Érika Santana do Nascimento
Mogi das Cruzes – SP, agosto de 2026.
Fotos: Acervo pessoal
E assim, em uma construção feita a muitas mãos na escola, em Poá, guardei os registros de um dia que se revela como o começo de uma bonita jornada pelas memórias e raízes do nosso povo. Confira os registros desse percurso!